Francisco Ferreira de Freitas Filho, o Di Freitas, nasceu em Fortaleza (CE), onde estudou violoncelo e violão clássico no centro de formação de instrumentistas de cordas do SESI. De formação erudita, participou de vários festivais de música com renomados professores em Fortaleza, São Paulo e Rio de Janeiro. Tocou por vários anos em orquestras profissionais, como a Filarmônica de Goiás, e, em Fortaleza, no Syntagma, grupo que trabalha a relação entre musica antiga e música nordestina. Há sete anos desenvolve, em Juazeiro do Norte (CE), trabalho de experimentação musical com materiais alternativos, pesquisa iniciada com alunos da APAE. Atualmente é coordenador de música da Orquestra de Rabecas do SESC. Em 2007 lançou, ao lado da cantora lírica italiana Francesca Della Mônica, o CD Ultraexistir.
O CD O Alumioso será lançado em fevereiro de 2009 pelo Selo SESC.
Francesca Della Monica & Di Freitas : Encontros ultra-musicais
Nas grandes veredas das metrópoles e sertões
Toda vez que diferentes culturas musicais se encontram e dialogam entre si, via de regra, algo de novo e belo irrompe. Isso vem ocorrendo no curso da história de nossa vida musical, anfitriã generosa de várias culturas advindas de múltiplos lugares e etnias, frutificando novas linguagens e expressões da arte musical em nosso país.
Isto ocorre, precisamente, com o encontro de dois entes musicais de extraordinária sensibilidade, saídos de dois domínios tão diversos (o mundo da tradição e o da contemporaneidade), e, a um só tempo, revelador de tantas afinidades estéticas: o músico e luthier cearense Francisco Di Freitas e a musicista e cantora italiana Francesca Della Monica.
Di Freitas se notabiliza por sua perfomance na família das cordas (rabecas, violinos, violas e cellos), em instrumentos por ele mesmo criados mediante uma delicada artesania, usando como corpo de ressonância, cabaças colhidas da inóspita vegetação nordestina.
Francesca é considerada uma das vozes mais originais no panorama da música experimental italiana, tendo já trabalhado, inclusive, com o americano John Cage, célebre pelo experimentalismo no mundo da música alheatória, importante fonte de inspiração para seus exercícios da liberdade total e da imprevisibilidade composicional, onde a causalidade da organização do som e do silêncio é substituída pela casualidade.
Eis o fruto novo colhido no campo deste grande encontro:
- Improvisos entretecendo belas texturas musicais, pelo uso vocal/instrumental de climas timbrísticos, criando paisagens sonoras, tendo como chão, ora músicas do nosso acervo e cancioneiro popular, como o Trenzinho Caipira de Villa Lobos, e Asa Branca de Luiz Gonzaga, dentre outras, ora movimentos melódicos modais, vocalises expressionistas, bem como tapetes sonoros tecidos pela textura coral e ritmos de vozes e instrumentos percussivos, em movimentos pontilhísticos, seja no interior do código da linguagem tonal, seja pela liberdade de saltos intervalares para aquém ou além do tonalismo;
- momentos densos obtidos pela sonoridade dramática que Francesca imprime na sua voz, tendo como contraponto a dramaturgia do texto enunciado pelo ator Cacá de Carvalho, inspirado no imaginário roseano de Grande Sertão: Veredas.
Talvez resida aqui a força mágica deste grande encontro provocado por duas almas artísticas de extrema sensibilidade: sons advindos dos grotões mais profundos de nosso interior sertanejo, dialogando com o material sonoro da modernidade urbana contemporânea.
Talvez resida aqui o desafio maior deste grande encontro: o convite para trilharmos um mundo de ambivalências, levando-nos a novas experiências estéticas, em um grande exercício de escuta diversificada, pela coexistência de mundos aparentemente tão diferentes: o familiar/ o estranho; o perto/ o longínquo; o rústico/ o sofisticado; o popular/ o erudito; o tradicional/ o experimental; o sertão/ a metrópole.
Consiglia Latorre
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Di Freitas, por Antonio Madureira
Conheci Di Freitas em 2005, quando fazia com o Quarteto Romançal o Sonora Brasil, Circuito Nacional de Música do SESC. Foi lá, em Juazeiro do Norte, terra do Padre Cícero, que encontrei Francisco, este grande artista. Sem dúvida um encontro memorável. Na ocasião, conversamos longamente sobre música, pesquisas e sonhos. Di Freitas contou das suas atividades na área pedagógica e que desenvolvia uma original luteria. Muito me tocou sua descrição do trabalho que realizava junto aos alunos da APAE e da criação de uma orquestra de rabecas.
Logo após o nosso concerto, fui à oficina ver de perto sua arte de criar recriar instrumentos musicais. Trabalhando artesanalmente materiais alternativos e recicláveis, age coerentemente com a realidade sócio-econômica do seu campo de ação.
No momento, tenho a oportunidade de conhecê-lo como instrumentista e compositor. Seu disco é um inventário das sonoridades nordestinas. Repertório que segue antigas rotas levando-nos às origens. Seus arcos musicais, por ele mesmo construídos, refazem pontes, religando-nos à nossa ancestralidade.
Os toques da rabeca e do marimbau fazem ressoar um passado mouro; belo momento cantado revisita a tradição ibérica do romanceiro. O pulsar do sangue afro responde ao baque virado do maracatu nação, e a tradição cariri se faz presente nas flautas e pífanos.
O Selo SESC, com maestria, vem garimpando preciosidades da produção musical contemporânea, criando assim um catálogo fonográfico de referência nacional.
Hoje se renovam a alegria e emoção daquele encontro no Ceará. Com este trabalho, Di Freitas mostra a sua forte musicalidade, tecendo um tapete sonoro legítimo de um músico brasileiro.
Antonio Madureira
Compositor e maestro
Regente do Quarteto Romançal
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No programa "Metrópolis", exibido pela TV Cultura: