Num momento em que o Brasil vivia a emergência do rock, Dulce Quental foi a voz do pop sofisticado, mas sem jamais perder a ligação com os de sua geração. Nos três discos que gravou nos anos 80, Délica (1986), Voz Azul (1987) e Dulce Quental (1988), estavam lá, em pessoa ou com suas composições, desde o ícone da bossa nova João Donato (e outro que nos anos 00 se tornaria nome de frente da novíssima bossa, Celso Fonseca), a nomes da música popular de vanguarda, como Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, passando, como não poderia deixar de ser, pelos ídolos do rock Brasil dos 80 Herbert Vianna, Arnaldo Antunes, Humberto Gessinger, Cazuza e Frejat. No entanto, mais do que as presenças ilustres, o que os discos tinham a mostrar era a voz azul de Dulce, que revestiu de luxo e delicadeza as canções mais interessantes daquela época, muitas das quais de sua autoria (caso de “Délica”, “Não Atirem no Pianista” e “Voz Azul”), a despeito de seus maiores sucessos de rádio mesmo terem sido o “Caleidoscópio” (de Herbert Vianna, só mais tarde gravada pelos Paralamas do Sucesso) e “Natureza Humana, versão de Jorge & Waly Salomão para o hit de Michael Jackson “Human Nature” – eis, aliás, duas gravações que até hoje volta e meia trazem alento e sol da tarde aos ouvintes de rádios FMs cansados de tanta banalidade.
O tempo passou e, enquanto Dulce navegou por outros mares, como letrista de músicas do Barão Vermelho, Ana Carolina, Cidade Negra e outros artistas, suas lições de economia e elegância vocal, seu ouvido afiado para sacar um bom e inteligente repertório e seu bom gosto para as escolhas de arranjos serviram de padrão para muitas cantoras do chamado segmento adulto-contemporâneo que surgiram no Brasil.Um hiato de quase 15 anos privou os ouvintes de ter acesso a Dulce por inteiro – fazendo letra e melodia, cantando, arranjando e interagindo com as pessoas mais interessantes das gerações dos 80, 90 e 00. Pois para todos que esperaram, aí está o novo disco de Dulce Quental, Beleza Roubada, que soa como se o tempo não tivesse passado. Com as programações eletrônicas e teclados de Sacha Amback e Damien Seth, e um time de músicos que inclui os craques Vinicius Rosa (guitarra) e Renato Fonseca (teclados), Dulce se reinventa para nova década mas, ao mesmo tempo, mantém-se na essência como era – quem ouvir seus trabalhos dos 80 verá que nada envelheceu. Ao contrário – eles até anteciparam ondas futuras. Assim, Beleza Roubada não é o disco da volta da cantora, mas a seqüência de um trabalho que nunca deixou de trazer novidades.
“Capuccino”, parceria com Zélia Duncan, uma das mais destacadas cantoras-compositoras da geração 90, atualiza as delicadezas do pop de Dulce Quental, numa canção com aroma de manhã e brisa de canela. Eletrônicas contemporâneas e suaves temperam o fino quitute que é “Bordados de Psicodélia”, feliz encontro de Dulce fez com outro expoente da música brasileira moderna, Moska – aliás, é ele quem elegantemente dedilha o violão na gravação. “Beleza Roubada”, a faixa que dá nome ao disco, é o encontro da bossa com as sonoridades contemporâneas, mediada por uma voz que conhece bem os terrenos em que está pisando – isso, para não falar da engenhosa letra, que fala de desencontros amorosos com a mais feminina das óticas, sedutora como a mais bela das Liv Tylers. E se é para falar em pop com P maiúsculo, P de preciosidade, prazer, perícia e perspicácia, o melhor é não falar. E sim ouvir “Topo do Mundo” (parceria com Frejat), “Conversa Informal” (samba moderníssimo com uma festa de samples) e “Quando”, que já desponta com cara de sucesso sem mesmo ter tocado no rádio ainda.
E tem mais em Beleza Roubada. O desencanto dá as caras vestido de eletrônicas em “Nova Idade das Trevas”, música de belos versos do tipo “como vai ser então a nossa história nesse filme sem cor/ desapareceremos na memória de um mundo que desertou”. A bossa revive em “Ipanema”, uma delicada canção que traz nova visão sobre o bairro, musa da bossa nova, ainda hoje uma gata charmosa apesar de todos os pesares do Rio de Janeiro. Mais à frente, o folk se injeta de beats – e de falas do falecido poeta beat Allen Ginsberg – em “Conferências Sobre o Nada”, mais uma parceria de Dulce com Frejat (em conjunção com Ginsberg, é claro). A receita musical se repete em “O Escritor”, que dessa vez tem falas de Fernando Sabino, num clima de homenagem a um dos maiores escritores brasileiros vivos. Mais uma receita e tudo se resolve no disco: a “Receita de Felicidade”, que se resume a voz, violão e teclados – nada falta, nada sobra, só a beleza – e o resultado prometido é imediato. E assim termina a viagem por Beleza Roubada. A voz, em seu azul profundo de tarde ensolarada de inverno – nem quente nem fria, apenas aconchegante –, está de volta com toda a sua graça.
Silvio Essinger
In the 80's, a group of young rock/pop artists emerged on the Brazilian music scene, including the legendary late Cazuza. Among them was Dulce Quental, a singer/songwriter with a tender voice who stood out by singing and writing sophisticated pop songs, on her own and with the pioneering Sempre Livre. Dulce's acclaimed three solo albums (Délica - 1986, Voz Azul - 1987, and Dulce Quental - 1988) featured songs or guest appearances by bossa nova icons like João Donato, new bossa names like Celso Fonseca, avant-garde musicians like Itamar Assumpção and Arrigo Barnabé, plus Herbert Vianna, Arnaldo Antunes, Humberto Gessinger, Frejat, her close friend, Cazuza, and other idols of Brazilian rock.
Despite the glittery guest stars, the albums’ highlights were Dulce's fluid voice and the incisive and poetic songs, many written by Dulce herself, including "Délica", "Não Atirem no Pianista" and "Voz Azul". Dulce’s great radio hits were "Caleidoscópio" by Herbert Vianna (later recorded by Paralamas do Sucesso), and "Natureza Humana" (a Portuguese version of Michael Jackson's "Human Nature" written by Jorge & Wally Salomão), songs that still appear on the airwaves of FM stations today.Time went by, and while Dulce sailed different seas - writing lyrics for Barão Vermelho, Cidade Negra and Ana Carolina - her lessons of minimalism and vocal elegance, her ability to pick fine, intelligent repertoire, and her good taste in choosing the best arrangements set the stage for the many successful contemporary-adult singers that came after her. Then, a self-imposed 15-year hiatus kept Dulce's multifaceted talent as lyricist, melody maker, singer and arranger away from her public during the late-80's, 90's and early-00's.
But now, finally, here's Dulce Quental's new album, Beleza Roubada. And it sounds as if that break had never happened. With Sacha Amback's and Damien Seth's electronic programming and keyboards, and an all-star team of musicians that includes Vinicius Rosa (electric guitar) and Renato Fonseca (keyboards), Dulce reinvents herself for the new millennium, but, at the same time remains essentially the same classic vocalist and songwriter. Her albums from the 80's never got old -- they set the groundwork for the future, our present. So, in a way, Beleza Roubada is not a comeback CD, but the natural next step in a career that always presented new ideas and concepts.
"Cappucino", a partnership with Zélia Duncan, one of the most outstanding singer/songwriters of the 90's, updates Dulce's classic pop -- it’s a song that smells like cinnamon on the morning breeze. Contemporary, suave electronic effects spice the fine dish of "Bordados de Psicodélia", a fortunate reunion of Dulce and Moska, another exponent of modern Brazilian music who, by the way, is responsible for the elegant guitar on this track. "Beleza Roubada", the title track, blends bossa nova with contemporary sonorities and features a vocal performance that shows that Dulce really knows what it's all about. Not to mention the ingenious lyrics, which talk about broken hearts from a seductive feminine perspective.
"Topo do Mundo" (written with Frejat) and "Quando" have got all the makings of instant hits. And if we change the subject to bossa nova, there's nothing more modern than "Ipanema" (a new view of the bossa nova muse, still inspiring, still fresh).
This is it, this is what Beleza Roubada is all about. The voice, with its deep blue of a sunny winter afternoon - neither cold, nor hot, just cozy - is back, with all its grace. The time is once again for Dulce Quental, a singer and songwriter for the ages.
CD Ivan Rodrigues I - FREE!! Link blogs.myspace.com/ivanrodriguesalves Send to your friends, if you like. Thanks for support. Hugs from Rio de Janeiro.
Olá Dulce! Obrigada por me add! Curto suas músicas desde a época do Sempre Livre. Amo "Tudo é Mais",não me canso de ouví-la,ainda mais porque tem a participação do meu amor Cazuza. Sucesso e saúde sempre!!! Beijos.
DOCE DULCE. NÃO É SÓ DE INCENTIVO E ADMIRAÇÃO,MAS VC É UMA DAS GRANDES DIVAS DE NOSSA MÚSICA POP. O POVO É QUE ANDA COM UM GOSTO MEIO ESTRANHO EM RELAÇÃO A MÚSICA. SINTO ISSO NA PELE.E TEM MAIS: A CULPA É DOS GRANDES VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO E ENTRETENIMENTO QUE SÓ VISAM DINHEIRO QUE VEM MONITORADO PELA EXPRESSIVA IGNORÂNCIA CULTURAL BRASILEIRA. A FÁBULA DA SACANAGEM IMPERA. MAS, NÓS ESTAMOS FORA DISSO. ESTAMOS ONDE SEMPRE ESTIVEMOS. SEM CULPA NA ESTRADA. SEM CULPA DE MATAR A ARTE MUSICAL DO NOSSO BRASIL. PARABÉNS PARA NÓS. ABRAÇOS. ROSH.
FANTÁSTICA DULCE. SEU POTENCIAL MUSICAL ESTÁ CADA VEZ MELHOR. MÚSICA E VOZ QUE ME FAZ TRANSCENDER DESDE MUITO TEMPO. HAVIA TE PERDIDO DE VISTA, MAS, NA DIAGONAL DO VENTO ME REENCONTREI COM VC. SUA MÚSICA ME FAZ MAIS HUMANO. MAIS FELIZ. GUARDO SUAS CANÇÕES COMO DESEJOS, NO FUNDO DO CORAÇÃO.SUPERFÍCIE DE UM BEIJO.VC DÁ VIDA A CANÇÕES DE OUTROS COMPOSITORES, COMBINANDO TUDO COM SEU ESTILO ÍMPAR. COM TODO RESPEITO, TE AMO MUITO. UM GRANDE ABRAÇO. ROSH.
Sua belíssima voz, sua interpretação, seu repertório.. Dulce, tudo encanta, tudo emociona. "O Escritor", "Girassois Azuis"...quanta maravilha aqui. parabéns e obrigado. um abraço, Ubi
Muito grato! Maravilha de som. A música faz com que as pessoas experimentem um pouquinho do mundo divino. Neste espaço, pude perceber que são habitados por anjos - e você é um deles - não importa sua legião. Penso que a música está acima do bem e do mal. Portanto desejo uma ótima existêcia e agradeço por existir no seu tempo. Um grande beijo!!!
Paulo Djorge
Dulce Quental é uma das maiores vozes desse país. Possuo quase todas as suas obras em vinil. Na versão Caleidoscópio , do disco "Voz azul"(com todo respeito ao "fabuloso" Herbert Viana, que inclusive é o autor), Dulce deu um toque especial a canção. Gostei tanto dessa música que possuo até uma "RARIDADE". Uma versão dela em vinil. A capa é de cor cinza . Nele, tem algo que parece um selo azul rasgado na frente e duas pequenas fotografias atrás(uma delas é com o Herbert ).Já no disco Délica, Michael Jackson deveria ouvir a faixa 4 do lado A do vinil. Iria pensar duas vezes antes de parar o show(como fez em 84, antes de cantar Human Nature). Só tenho que agradecer a essa grande artista por fazer parte de nossas vidas. Dulce Quental Muito obrigado!