|
A sexta edição do Rockspot marcou a sua fase de afirmação entre o roteiro português de festivais de Verão. Durante dois dias a Bajouca acolheu um evento de qualidade, com um cartaz cirúrgico, que se mostrou capaz de mobilizar pessoas em prol da música e da solidariedade. Foi, por isso, com redobrada satisfação que testemunhámos a maior afluência de sempre das seis edições do evento, sinal de que o esforço dos inúmeros voluntários não remunerados que dão corpo ao projecto, encabeçado pelo GAU – Grupo Alegre e Unido, valeu a pena. É que não só se obteve a solidificação de um projecto que de ano para ano se cimenta entre os demais, como se conseguiu contribuir com a maior maquia de sempre deste festival à APPC – Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral, de Leiria. O rock solidário continua a ser o género de música mais ouvido no Rockspot!
SEXTA, 26 JUNHO
Os primeiros a pisar o palco foram os Shake Shake And Show Me Your Pussy. Os alcobacenses, agora aumentados para trio, cujo nome muito furor fez entre os meios de comunicação aquando da divulgação do evento, confirmou serem detentores de um rock’n’roll garageiro, encalhado algures num hiato entre a década de sessenta e o espaço sideral que existe entre os deltas e os planaltos americanos. O trio, que experimentou alguns problemas técnicos e denotou alguma falta de rodagem, mostrou que um palco daquelas dimensões não é o seu habitat natural, pois deles se exige proximidade, fumo, calor, suor e provocação. Mesmo assim, e a avaliar pela reacção que veio da plateia, a banda marcou pontos…
Quando subiram ao palco os portuenses The Dixie Boys já o recinto apresentava a sua maior moldura humana de sempre (faltava ainda saber como seria a afluência no dia seguinte) e foi espantoso ver que não houve uma única alma no recinto do festival que ficasse indiferente à sua prestação. A banda, aprumada como se esperava, apresentou uma celebração imaculada do rockabilly genuíno, sem mestiçagem, puro, primordial, bem disposto, generoso, festivo e verdadeiramente contagiante, com um show de grande categoria, onde se destacou um contrabaixo em delírio. Não foi por isso de estranhar que o recinto se transformasse, num ápice, num gigante gingar e bater de pé colectivo, transversal a qualquer tribo e idade. Os The Dixie Boys foram, provavelmente, a banda mais unânime de todo o certame.
Era com alguma curiosidade que se aguardava aquela que é hoje uma das bandas mais emergentes da actualidade: os Tiguana Bibles - onde pontificam verdadeiras lendas da música nacional, como Kaló (Bunnyranch e ex-Tédio Boys), Victor Torpedo (ex-Tédio Boys, Pankinsons e Blood Safari) ou ainda a britânica Tracy Vandal (ex companheira do líder dos Franz Ferdinand, Alex Kapranos, nos Karelia). O quinteto debitou a sua música mezcalera, inspirada nos desertos do Novo México, e pontificada com uma elegância e sensualidade que nos remeteu, muitas vezes, para o imaginário Lynchiano de Blue Velvet. Habituados a tocar em clubes fumarentos ou em auditórios solenes, os Tiguana Bibles superaram com distinção a prova open air do Rockspot 2009. E de uma banda com intérpretes daquela classe e gabarito, outra coisa não seria de esperar que não fosse o que foi: excelente!
A fechar a primeira noite apresentavam-se os Green Machine. A sua performance foi insuperável. A banda mostrou que foi talhada para contagiar. O seu rock frenético tem um groove irresistível e os seus músicos são de uma competência insofismável. O vocalista João Pimenta confirmou o que já antecipadamente sabíamos: é um “animal de palco”, um performer nato capaz de se adaptar a qualquer circunstância. O concerto foi uma espécie de tributo póstumo a Michael Jackson no qual não faltou sequer uma jam com o vocalista a privar longos minutos entre o público, o baterista a levar um timbalão para um dos cantos do palco, e o guitarrista a ocupar o lugar deixado na bateria, aproveitando para bater nos pratos com a haste da sua guitarra. Os Green Machine são daquelas bandas dotadas de capacidades ilimitadas, prontas a brilhar em qualquer palco do universo. Grande primeira noite do Rockspot 2009!
SÁBADO, 27 JUNHO
O segundo dia do festival prometia muito, e de facto, cumpriu. O público, que na noite anterior já tinha batido o recorde de todos os Rockspots passados, voltou em força e suplantou ainda a nova fasquia, tornando o Sábado de 27 de Junho de 2009, até ver, na data de maior afluência da história do evento. E cedo se viu que a agitação madrugou.
Na altura em que os Ti Maria subiram ao palco já o recinto fervilhava com a presença de melómanos, foliões e curiosos. Entre a falange notava-se uma camada etária bastante jovem, atraída, por certo, pela popularidade do “cabeça de cartaz” da noite: Slimmy. Paradoxo dos paradoxos, foi ver essa mesma franja a cantarolar os temas de TiMaria, sinal de que as hostes se tinham preparado, fazendo trabalho de casa na pesquisa das bandas em cartaz. O certo é que a banda onde sobressai Nuno Rancho (cantautor em franca ascensão no panorama nacional), a jogar em casa, não deixou créditos por mãos alheias, encetando uma actuação segura, contagiante e promissora de outros voos. Os TiMaria têm todos os predicados para virem a singrar. Quase todas as suas canções são potenciais hits e não nos restam dúvidas de que irão longe. O público aplaudiu e agradeceu.
Chegava a vez dos Sizo, que foram uma das grandes surpresas para o escriba que por baixo assina. O grupo tem um som coeso, personalizado, e uma óptima presença em palco. As referências são oriundas das melhores castas musicais, como o revelado no mash-up que cruzou Suicide e Sonics. Absolutamente estonteante! A banda, que se espraia entre a excelência da base rítmica e a destreza do teclista (que fabulosas sequências ele executa em tempo real naquele invejável moog!) pôs o público num delírio colectivo e desenfreado, onde por certo, o papel de firestarter do vocalista, também em muito contribuiu. Nota alta!
A prestação dos If Lucy Fell foi algo insólita. Estamos em crer que a maioria dos presentes os apreciou não pelos seus dotes musicais (extraordinários mas pouco acessíveis a ouvidos destreinados) mas pela sua estonteante presença em palco. O vocalista, de descendência Japonesa, e que mais parece um boneco de borracha (tal é o seu grau de contorcionismo) incita e desempenha como se estivesse numa dança de trance chamânico. Os guitarristas, que à distância pareciam gémeos, disputam entre si o grau de maior ferocidade, e o baterista (Hélio Morais, também dos Linda Martini) provou amplamente ser um dos melhores que há: mais certo que um metrónomo (mesmo nos intrincados contratempos rítmicos) e verdadeiramente demolidor. No final, a plateia, que parecia ter sido açoitada por uma tempestade sonora, olhava-se entre si, boquiaberta, e certa de ter testemunhado algo deveras invulgar. Que banda!
A chuva, que já tinha dado sinais fugazes e esporádicos durante as actuações anteriores, resolveu aparecer definitivamente na prestação de Slimmy. Nada que estragasse uma actuação de grande nível, de cuidado aparato cénico, de muito rock e muito glamour. As músicas de Slimmy são todas, sem excepção, de grande potencial, seja em Portugal, na Inglaterra, ou nos Estados Unidos. Não se estranhe, por isso, que a sua música conste em séries tão díspares e populares como a portuguesa Morangos com Açúcar, ou como a igualmente popular mas de culto americana CSI. O certo é que não se pode ficar indiferente ao visual penetrante dos músicos, à sincronização dos pormenorizados jogos de luzes, ou ao impacto da tela personalizada gigante que os envolve. Slimmy é luz, é lascívia, é cor, é dinâmica, é sensualidade, é provocação, é espectáculo garantido! Os corpos exaustos, molhados, e abandonados à dança que se espelhava pelo recinto, agraciavam a dádiva que se debitava em palco, ao mesmo tempo que conferiam o cenário ideal para um final edílico e quase épico de um evento que, ano após ano, granjeia fãs e apreço.
Carlos Matos
MÉDIA PARTNERS


|