Bem longe do óbvio
Banda Navegante afugenta o marasmo dos temas regionais com sonoridade tropicalista e psicodélica
Em tempos de cena alternativa estabelecida, são inúmeras as propostas de musicalidade. Se uns prometem uma mistura estranha aqui, outros tentam uma ainda mais obscura acolá. Nessas tentativas, admitir uma característica pop parece um deslize musical.
Celsinho Barreto, vocalista e letrista da Navegante, admite sua veia pop sem ver nisso algum descrédito. Pelo contrário. Celsinho diz que isso traz fluidez à poesia que transforma em música ao lado de João Salles (guitarra)e Diego Felipe (percussão). E, para adivinhar como soa a banda, talvez bastariam as influências da mpb e da psicodelia de Caetano, Gil, Mutantes eJorge Ben. Mas estas influências só bastariam para o quesito sonoridade.
Pois o regionalismo é que ajuda a construir as imagens mais significativas das letras de Celsinho. A fórmula é livrar-se do óbvio, diz o vocalista. A mesmice de exaltar as coisas da terra dá lugar à sensibilidade do cuiabano em sua trama. Sem caricaturas. Na letra de “Laranja”, por exemplo, o rio Cuiabá ambienta a poesia, mas não é cultuado. Está mais para um cenário que para objeto da poesia. Está mais para um rio sem peixes.
Navegante dedica sua apresentação a quem queira contemplar música,não somente ir a um show. Apreciar música pode significar mais e “Navegante”sugere isso mesmo. “’Navegante’ nos pareceu interessante por poder referir-se àpessoa do navegante ou à qualidade daquilo que navega”, segundo Celsinho. Não é por menos. A banda se desdobrará, numa só noite, num enredo de abstrações,lendas cuiabanas, elefantes indianos, constelações e – porque ninguém é de ferro – até uma história de amor.