Kafka Show lança álbum de estréia “Escorre pelo caos para um novo horizonte”
Com influência de músicos nacionais oitentistas, como Gang 90, Fellini, Lobão e Cazuza, a banda independente lançou seu álbum de estréia “Escorre pelo caos para um novo horizonte”, em 30 de maio, no Clube Belfiori, em São Paulo.
Quem assina concepção artística, produção, gravação e mixagem do álbum é o vocalista Diogo de Nazaré. Criada em 2002, a banda é caracterizada pela sonoridade visceral e pelo toque pop nos arranjos eletrônicos. Baixos deslizantes, guitarras harmoniosas e baterias pulsantes compõem com bases eletrônicas e letras cortantes, em português, a energética identidade sonora do grupo.
O repertório de 11 faixas foi totalmente concebido no Kafka Estúdio. O sobrado vermelho, em meio ao caos de uma das ruas mais movimentadas da Vila Madalena — a Cardeal Arcoverde —, foi o lugar ideal para composição das músicas, não só pela estrutura, mas por toda efervescência cultural do local. Exposições de fotografia, paredes grafitadas pelo duo “Padê Kills”, festas com gente do mundo das artes e da moda, entre outras coisas, certamente ajudaram a compor o clima perfeito para a concepção do disco.
Soturno em alguns momentos, dançante na maioria deles, o disco traz um turbilhão de sensações, todas derivadas da constante metamorfose humana, cravada por inseguranças e falta de perspectiva num mundo onde os paradigmas estão esfarelando. Em “Quem?”, isso é extravasado com a história de uma mulher que, num mundo ilusório e pós-moderno, descobre que sua fragilidade é fruto da solidão. O verso “Quem você tem? Ninguém. Querida, eu sei também que não tem nada a perder, mas diga quem você tem para te amar e te proteger” cria um sentimento de estranhamento e reflexão a quem ouve.
Um dos momentos especiais do álbum é “Sonho Adolescente”. Sendo a música mais rock, no formato tradicional, a canção embalada pelo riff de guitarra, cresce com os sintetizadores na ponte, explodindo no refrão, com camas de distorção sob guitarras velozes.“A sonoridade dessa música é certamente a mais crua do álbum. Sem falar na letra, que me parece descrever o que a geração que cresceu nos anos 80, com heróis americanos e sonhos inalcançáveis, vive", contou Leandro Cunha, vocalista da banda de electro rock Multiplex, que está sendo produzida por Diogo.
O Kafka Show já se apresentou no Nokia Irap e na primeira Virada Cultural, no Paço das Artes, em 2005, ambos com o coletivo de arte “mm não é confete”. No ano seguinte, eles participaram da Mostra Fiat na Bienal de Arte de São Paulo com o mesmo grupo. "Foi realmente incrível tocar no Nokia, no mesmo evento em que bandas que adoramos, como Human League e Chk Chk Chk, tocaram. Já na primeira Virada, uma dançarina de arte contemporânea era gravada e projetada sobre ela mesma, enquanto nós fazíamos a trilha sobre a qual ela dançava, bem wow!", disse Diogo de Nazaré.
Já 2008 foi um ano dedicado ao circuito de clubinhos de São Paulo. Tocando em casas como Belfiori e Berlin, tiveram uma ótima repercussão junto ao público, principalmente pela energia jorrada no palco e pela performance surtada de Diogo. Isso se deve, principalmente, à entrega dos músicos ao trabalho que fazem, o que hipnotiza as pessoas que assistem.“É muito legítimo o que eles fazem, eu já ouvi muitas coisas e sei reconhecer quando é de verdade”, afirmou a jornalista de moda Erika Palomino.
Com o lançamento do disco de estréia, a banda pretende sacudir a cena do rock brasileiro e trazer elementos da música eletrônica de volta para o que já foi chamado de RockBR. Para o vocalista da banda, a música atual feita no país carece de poesia e atitude, coisa que bandas como Titãs e Legião Urbana, por exemplo, pareciam ter de sobra há vinte anos.
Felipe Lessa